Vá Estudar, Zezinho!


Volta e meia estoura uma discussão, seja em listas ou em botequins frequentados pela turma criativa, sobre a diferença entre os micreiros e os designers. Uns dizem que isso é tolice, que todo mundo é designer, outros dizem que saber operar um programa gráfico não faz de ninguém um designer. E arrasta-se a discussão por um bom tempo (ou muitos e–mails). Não vou entrar aqui na questão da formação universitária ou na da regulamentação da profissão; essas batatas quentes eu vou deixar para depois. Mas vamos colocar aqui que existe, sim, uma grande diferença.

Mas, espera um pouco, Zezinho! Antes de começar a me tacar mouses e tablets na cabeça, preste um pouco de atenção e leia até o fim. Já adianto que não estou dizendo que operadores de programas de computador são algum tipo de pessoas de segunda classe, como políticos, ou outra bobagem do tipo. Muito pelo contrário, a maioria deles é composta de profissionais extremamente competentes que dominam muito bem a ferramenta ou as ferramentas com as quais trabalham, muitas vezes melhor do que os designers em si. Ocupam um nicho de mercado de altíssima importância. Contudo, por outro lado, isso não faz deles designers — da mesma forma que um operador de gráfica, por melhor que seja, também não é um designer. Não é a ferramenta que faz um profissional. Eu posso aprender muito bem a usar as ferramentas de um pedreiro mas isso não vai fazer de mim um engenheiro civil. E da mesma forma que um engenheiro civil não constrói um prédio sozinho, o designer também não precisa, e muitas vezes não consegue, operacionalizar sozinho um projeto.

Porque um designer é, antes de mais nada, alguém que verifica conceitos, estabelece projetos a partir de uma metolodogia e determina sua melhor execução. Independente da ferramenta a ser utilizada. Essa ferramenta pode ser um programa de computador, uma tela de silkscreen, os velhos papel e lápis, ferramentas de corte para madeira ou um spray e um muro. Tudo isso vai depender do projeto a ser executado. Partir da ferramenta para desenvolver projeto é colocar o carro à frente dos bois, quase que literalmente. Isso é um erro primeiro por limitar o projeto às ferramentas dominadas ou disponíveis, depois por engessar o desenvolvimento normalmente a uma série de antecedentes já desenvolvidos naquela ferramenta (ou seja, vai pela moda). De qualquer maneira, Zezinho, se você não tem uma conceituação de projeto o seu resultado final vai ser sempre uma cópia ajustada de alguma coisa ou não vai atingir os objetivos propostos pelo seu cliente.

Conceito, meu caro, projeto. Tudo isso é mais do que essencial. Só que conceitos e projetos não são algo que “baixam” no designer que nem santo em terreiro e nem surgem por inspiração em noites estreladas. Eles são o resultado de um pensar estruturado e metodológico baseado em uma série de conhecimentos que se vai acumulando e adquirindo através de estudo constante. E, não adianta, esse conhecimento é teórico.

“A–HA!”, grita Juquinha, lá da terceira fileira do fundo, “Eu sabia que ele ia falar de universidade!”

Calma, amiguinho, calma. Universidade também se encontra nesse escopo. Um curso politécnico ou um bacharelado são métodos de se ter esse conhecimento concentrado em uma estrutura de aprendizado estruturada e fácil de ser acompanhada. Bem, pelo menos mais fácil do que se você tiver de sair catando essas informações por todo canto. Mas, claro que a faculdade não é a única maneira de se obter esse conhecimento. Com uma certa dose de força de vontade, paciência e uma ajuda de quem já conheça, tudo isso está disponível em livros, sites, cursos avulsos ou mesmo na velha relação mestre/discípulo, que não aparece só em filmes de kung–fu. O problema maior não é, porém, saber onde arrumar esses conhecimentos. É saber quais são esses conhecimentos.

Eis a má notícia, Zezinho… É justamente aquele conhecimento teórico chato de coisas que a gente normalmente fica coçando a cabeça querendo saber para que serve quando não os conhece mas que faz maravilhas nas mãos de quem os domina. Coisas com nomes estranhos como Gestalt, Semiótica, Semiologia, ou não tanto como História, Estética, Tipografia e outras do tipo. São essas teorias todas que, juntas, formam um corpo de informações que dão ao designer uma educação do pensamento e do olhar que lhe servirão, em última instância, para pegar todos os dados de um briefing e transformar aquilo em uma coletânea de conceitos focados e viáveis que serão utilizados para aquele tal de processo que falamos antes. Ah, e a tal da metodologia também é um desses conhecimentos teóricos. Sem essa teoria toda na cachola, os conceitos utilizados e o projeto resultante serão — perdoe–me a franqueza, Zezinho —, puro chute. É claro que você pode ser um daqueles que acerta a maioria dos chutes. Mas isso é contar com a sorte. Se eu dissesse que ao invés de trabalhar eu prefiro jogar na loteria todo mês para garantir meu salário você não acharia estranho? Pois é… É quase a mesma coisa.

Contudo, não se esqueça que essa teoria não vai adiantar de nada se você não souber colocá-la em prática. Teoria por teoria só é boa se você for um acadêmico ou para discussão em mesa de bar. Estudou? Aprendeu? Então transforme informação em conhecimento. Veja quais as melhores formas de aplicar aquela teoria no dia–a–dia profissional. Pense por si mesmo fora dos limites da caixa teórica e, assim, adicione o seu conhecimento (pensado, embasado e testado na prática) ao escopo dessa teoria. E não seja egoísta! Repasse esse conhecimento.

Mas… Tem sempre um mas, não é, Zezinho? Jamais, repito, jamais jogue teorias na cara do seu cliente. Não vai dar bom resultado, garanto. Ele não quer saber da sua teoria ou o quanto você é esperto. Ele quer ver os resultados. A teoria é a sua ferramenta de trabalho mais importante mas isso não significa que você precise exibí-la para quem não se interessa por ela. Com o cliente, esqueça a teoria e fale que nem gente.

Então, feche um pouco os seus tutoriais de Photoshop e Illustrator e vá procurar bons livros de teoria do design. Ou inscreva-se em um curso superior, ciclo de palestras ou seminários. Ou seja… Vá estudar, Zezinho! 

 

Fonte:designgrafico.art

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2 comentários (+add yours?)

  1. abigails
    Jul 13, 2010 @ 10:07:43

    Ótimo texto.
    Quando saímos da graduação (publicidade, design..) muitas vezes nos preocupamos em como inserir, por exemplo, um método de design em um job real com prazos curtos e pressão. Nem sempre os clientes compreendem essa necessidade de metodologia e tal, e como vc fala, não é função do cliente entender teoria, mas muitas vezes ele está tão acostumado a sentar do lado do “piá do corel” e fazer as coisas do jeito que ele imagina, que nem se dá conta da importância e da diferença que faz um profissional entender daquilo que se propoe a executar, e não só operar um software.

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